sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Em ritmo de filhos

Li esta manhã a coluna do Ricardo Araújo Pereira na Folha de São Paulo intitulado "Ter ou não ter", referindo-se a filhos. O texto é fechado para assinantes, então vou escrever livremente os meus pensamentos, citando um ou outro trecho.

A reflexão do autor é sobre a decisão de ter filhos, que chega um ponto no casamento em que as pessoas escolhem um caminho a trilhar. Eu, por exemplo, passei parte da minha vida de casada achando que não teria filhos. Estava muito boa a vida a dois, consolidada por 10 anos, com boa renda, viagens, noites bem dormidas, idas a museus e restaurantes bacanas. Coincidência ou não, listei rapidamente os pontos que, para mim, foram fortemente abalados com a chegada dos filhos. Ah, só não se perde a ida ao cinema, até os 18 meses do bebê, pelo menos.

Mas o que é uma "vida boa"? O que é ter a existência "abalada"? Sem dúvida, ter filhos altera radicalmente a rotina. Mais ainda, ter filhos muda o que somos. Passamos a pensar no plural, refletimos mais sobre passado, presente e futuro, fazemos contas para ver se o dinheiro permite, tentamos pensar antes de falar e falhamos inúmeras vezes. Se você é mãe, some a estas mudanças o fato de se sentir culpada com muito, muito mais frequência.

Só que depois de ser mãe, sei que nada substitui ver os primeiros sorrisos, ouvir as gargalhadas, sentir os abraços, escutar as primeiras palavras e frases, acompanhadas das noites insones, das febres, dos dentes nascendo, da irritação com a bagunça infinita que se tornou sua vida.

Não sou melhor por ter filhos e não me vejo na posição de dizer para ninguém que "todo mundo pre-ci-sa passar por esta experiência". Isso não me tornou melhor nem pior, só me fez diferente do que eu era antes.

Ricardo Pereira constata que não há boa razão para se ter filhos. Não é porque dão alegria ou para dar sentido à vida. "Não sei por que tive filhas. E assim é que está certo. Elas não devem ter uma razão de ser, uma utilidade. Olhar para elas, vê-las crescer, é a única coisa a que eu tenho direito."

Nos primeiros dias de uma família com dois filhos

Há 10 anos tomei, com meu marido, a decisão de ter um filho. Não lembro bem como foi que decidimos, e talvez tenhamos acordado um dia com vontade de ter filhos, não duvido. Tivemos não apenas um, mas três anos depois, veio o segundo - outra nada fácil decisão de vida. Somos felizes, predominantemente, mas às vezes, queremos nos matar uns aos outros.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Pesadelo em pink

Quase todo dia tem uma sessão CineMaterna rolando em algum canto desse imenso Brasil. Tudo acontece por que temos as nossas pinks voluntárias que estão ali para zelar e cuidar das mães, da sala do cinema e dos padrões: ar condicionado mais brando, som baixo e luz levemente acesa. Repetimos esse padrão em todas as sessões, dia após dia. Dá trabalho! Um trabalho necessário.

Queremos que tudo aconteça sem solavancos. No entanto, não é raro termos surpresas desagradáveis, mesmo com tudo esquematizado. O som fica extremamente alto, a luz apaga totalmente. Nesse momento é um corre-corre de pinks que só os corredores do cinema veem: chama gerente; pede para baixar o som; para acender a luz; pede isso, pede aquilo!

Já passei algumas vezes por essa maratona e sei o quanto é aflitiva a espera até a solicitação ser atendida. São minutos que parecem horas.

Gláucia Colebrusco, que supervisiona as (400!) voluntárias no Brasil, recebeu um áudio com esta história:

"Menina, esta noite eu tive um pesadelo com o CineMaterna. Sonhei que chegava atrasadona para uma sessão. Era uma sala gigantesca. A sessão já havia começado e estava todo mundo revoltado porque a sala estava completamente escura, além do filme travar diversas vezes. Nisso, todo mundo começou a deixar a sala e saí correndo atrás pedindo para a equipe do cinema acender a luz. Eu falava: "não é possível, é algo tão simples, só acender a luz!!!".  Sonho doido, eu desesperada. Pior é que acordei antes de solucionar o problema, hahahahahaha". 

Quem narrou foi a Renata Bougleux, voluntária carioca que está na equipe desde que CineMaterna iniciou no Rio, em 2009. É só um sonho, mas aposto que toda voluntária pink do CineMaterna identifica como pesadelo. A meta do CineMaterna é  proporcionar uma experiência acolhedora e agradável às famílias e para garantir isso, corremos, suamos e nos desdobramos. Até dormindo!

Renata e outras pinks cariocas,
em diversos momentos desde 2009

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Dormir, verbo imperativo

Você já deve ter observado um bebê adormecer. Não o bebê dormindo, mas o processo - frequentemente loooongo - de fechar os olhos e cair no sono. Para qualquer mãe e pai o sono arduamente conquistado é um alívio, um pouco de descanso, além de ser importante processo fisiológico para o bebê. Muitas, muitas, muitas vezes me peguei ansiosa para que meus filhos adormecessem e assim, ter um tempo para mim, além de um pouco de silêncio.

Se para nós, adultos, nem sempre é simples pegar no sono e muitas vezes necessitamos de rituais ou recursos como ler ou assistir TV, para os bebês não é diferente. 

Atualmente, observar a relação das mães com seus bebês faz parte da minha rotina. Agora que meus filhos estão maiores, consigo ter um olhar diferente, apaixonado, diria. Adoro observar os minutos que precedem o mergulho no sono, quando o bebê fica entre o pescar e a luta em se manter acordado. Fico enternecida em observar os pequenos códigos entre pais e bebês, como cantar baixinho no ouvido. Passar o dedo entre os olhos do bebê. Bebês que gostam de ser "embrulhados". Balançar, balançar, balançar para embalar. Aqueles que colocam a mão no peito ou na orelha da mãe (ou do pai, ou de quem for). Bebês que "falam" para dormir. Já vi bebê no colo que puxava o rosto da mãe e queria que ela esfregasse seu nariz no dele. Tem a naninha, clássica, entorpecente fascinante. Ah, claro, dormir no peito, ir fechando os olhos aos poucos, sugando. Ou o choro de cansaço até a exaustão - a deles e a nossa. Sem contar os casos cômicos daqueles que dormem comendo, pifam, não sem antes lutar contra o sono. 

Fazer bebê dormir, acalentando em pé:
recurso dos mais usados no CineMaterna 

É lindo ver os pequenos olhos fechando aos poucos, virando, abrindo novamente para, enfim, descansarem. Quanto mais ansiamos pelo sono deles, mais parece que esse abrir e fechar de olhos demora uma eternidade para chegar no estágio final. 

Taí mais uma característica da primeira infância que nem sempre é fácil de conviver e que, creia-me, um dia recordamos com saudade. 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

#aliceaventureira

No meio da tarde, recebo uma foto de Fortaleza (CE), do CineMaterna no RioMar: uma mãe, Rafaela, vestindo uma camiseta com logotipo do CineMaterna, e sua filha, a fofíssima (e aventureira), Alice. Uma mãe que encomendou uma camiseta e um body para elas curtirem o CineMaterna juntas e "uniformizadas", não é para derreter de amor?

Rafaela e sua filha Alice,
que vestem a camisa do CineMaterna 

São as pequenas lindas surpresas do dia. Singelas, chegam discretamente e causam grande comoção na gente.

Por falar em carinho-supresa, tem uma história envolvendo a coordenadora de Fortaleza, Rejane Reis. Há alguns meses tivemos um lançamento na cidade e ela foi impedida de ir. Na véspera, soube que teria que cobrir uma colega no trabalho no dia do evento. Rejane chorou, literalmente. Ligou aos prantos para avisar que não conseguiria estar conosco.

Quando cheguei a Fortaleza, um dia antes do evento, entrei em contato com ela para pegar nossos equipamentos, que estavam em sua casa. Ela respondeu que levaria à noite, insisti que era meu trabalho fazer este transporte. No que recebo a resposta: "Irene, eu quero fazer pelo menos isso... Vou participar com o máximo que posso. Não poderei estar presente, mas meu coração estará lá". E mandou a foto abaixo, demonstrando a tristeza de não estar no lançamento.

Rejane, coordenadora
CineMaterna de Fortaleza

É um amor que vem de todos os lados. Neste caso específico, lá do nordeste. Vem com a brisa morna do mar, aquecer o coração.

sábado, 2 de setembro de 2017

Como nós

Acabei de assistir a Como Nossos Pais. O desejo de ver o filme estava represado desde que, em um CineMaterna, estava distraída no início da sessão e, ao virar-me para a tela, vi a escola de meus filhos, enorme. Era o trailer deste filme. Não, esse não era o principal motivo da minha vontade de assistir, mas sim, que é um filme de Laís Bodanzky, uma das minhas diretoras preferidas, de quem já comentei outro filme (em 2010!) e acompanhei toda a filmografia. 

Assisti ao filme querendo gravar na mente as tantas cenas que me fizeram pensar, as que me emocionaram, aquelas com as quais me identifiquei e nas quais sorri. A fotografia é belíssima, te coloca dentro do filme, ao lado dos personagens, num jogo de foco e desfoco encantador.

Busquei na bolsa um papel e caneta para anotar os pensamentos, no escuro. Já que não tinha nenhum recurso, cheguei em casa e escrevi umas palavras. Ia comentar sobre o filme, mas aí, olhei para as palavras que listei e achei que ficou poético. Não sou crítica de cinema, minha intenção é apenas dividir minhas impressões. Acho que estas palavras soltas alcançam o objetivo, então, deixo assim.

sentir-se normal, identificar-se, perdoar-se
casamento depois dos filhos
relacionamentos familiares
crises pessoais, profissionais e tudo junto misturado
ter mãe, ser mãe
ter filhos, ser filha
a escola é um personagem
rotina
bodanzky
quase um filme argentino
narrativa simples, o cotidiano
filhos crescem e são para sempre
o all star azul
romance e realidade
são paulo
a hora de dormir
as disputas com outros egos
com o pai é diferente
entender-se, enxergar-se, envergonhar-se, reconhecer-se