segunda-feira, 13 de junho de 2016

Mães, mulheres, profissionais: tem uma ordem?

Se tem algo que não gosto de ler são livros de administração. Nada contra, só não são meu tipo de leitura. Gosto de biografias e romances. Para mim, o momento de leitura é uma viagem, um descanso.

[Este não é um post patrocinado.]

A primeira vez que prestei atenção neste livro foi a partir de uma notícia trágica. Sheryl Sandberg perdeu seu marido com menos de 50 anos de forma repentina. Ela escreveu uma tocante carta, 30 dias após seu falecimento e foi a partir desta dedicatória que cheguei em seu livro, Faça Acontecer (2013, Companhia das Letras).

Li o livro só agora, meses depois, após superar meu preconceito a títulos de negócios. Meu exemplar (um e-book) foi inteiro sublinhado. Os trechos que me tocaram se baseiam na identidade com o objeto do livro: sou mulher e mãe, dirijo uma pequena iniciativa que atinge mulheres e mães, muitas questionando sua carreira, repensando o que é valor em sua vida pós-maternidade.

Um dos créditos de Sandberg é que suas ponderações são baseadas em pesquisas e estatísticas, não apenas americanas - a versão brasileira inclui números locais.

Como executiva, seus exemplos pessoais são focados em carreira empresarial, mas achei bastante interessante tanto para mulheres que optam por continuar sua carreira anterior à maternidade, quanto para as que fizeram ou pretendem fazer uma mudança de rumo. Logo no início do livro anuncia que "é difícil conciliar maternidade e carreira, mas não sinto culpa por sempre ter me dedicado tanto ao trabalho. Acredito que as mulheres devam ter liberdade de escolher e isso não significa que elas serão melhores ou piores mães" (posição 63). Esta discussão soa bastante familiar, não?

Inicia o livro com uma ponderação importante, que pregamos tanto, mas que nem sempre vemos sendo praticado, em especial, nas discussões nas mídias sociais:
... não acredito que exista uma definição única de sucesso ou felicidade. Nem todas as mulheres querem uma carreira. Nem todas as mulheres querem filhos. Nem todas as mulheres querem as duas coisas. (...) Muita gente não se interessa em conquistar poder, não por falta de ambição, mas porque está levando a vida do jeito que quer. Algumas das contribuições mais importantes para o nosso mundo se deram ao considerar cada pessoa individualmente. Cada uma de nós precisa traçar seu próprio curso e definir os objetivos que condizem com sua vida, seus sonhos e valores. (posição 220)
Um dos capítulos é intitulado "O Mito de Fazer Tudo". Não requer grandes explicações, certo? É exatamente isso que aborda: que não, não podemos ter ou fazer tudo. Ser o que somos nos coloca diante de escolhas. Se já é uma questão importante antes dos filhos, depois... é, piora.
Todos fazemos escolhas constantes entre trabalho e família, entre se exercitar e descansar, entre conceder tempo aos outros e tirar tempo para nós. Ter filhos significa fazer concessões, ajustes e sacrifícios diários. (posição 2127)
Para as mães, a administração do sentimento de culpa pode ser tão importante quanto a administração do tempo. (posição 2404)
Eu não tive licença-maternidade no meu segundo filho. Nem um dia sequer. Fiquei mais lenta nas respostas por duas semanas, mas não cheguei a desligar. Aquilo não me incomodou e não é motivo de orgulho ou culpa. Foi um rumo natural. Trabalhava de casa, estava com marido e filhos ao lado, tinha apoio doméstico. E dirigia uma iniciativa cujo foco era exatamente eu, uma mãe recém-nascida, de dois filhos, no caso.

No CineMaterna acreditamos que estar próximo dos filhos é um valor, trabalhar em casa tem seus desafios - todas estamos em esquema de home office. Ah, o tão sonhado equilíbrio!
Se, por um lado, a tecnologia às vezes nos libera da presença física no escritório, por outro também estende a jornada. Uma pesquisa de 2012 sobre o mercado de trabalho mostrou que 80% dos entrevistados continuavam a trabalhar depois de sair do escritório, 38% viam e-mails durante o jantar e 69% não iam para a cama sem verificar suas caixas de entrada. (posição 2305)
Sandberg aponta muitas diferenças nos sentimentos e visões da sociedade entre homens e mulheres frente ao sucesso, ambição e competência. De uma forma geral, existe, sim, desigualdade entre os gêneros, aproximá-los é importante, mas ainda há muitas barreiras culturais.
Quando um casal anuncia que vai ter um filho, todos dizem “Parabéns!” ao homem e à mulher “Parabéns! O que você vai fazer com o trabalho?”. O pressuposto amplamente adotado é que criar o filho do casal é responsabilidade dela. Em mais de trinta anos, essa ideia não mudou quase nada. Um estudo da turma de Princeton de 1975 mostrou que 54% das mulheres previam um conflito entre o trabalho e a família, contra 26% dos homens. O mesmo estudo da turma de Princeton de 2006 mostrou que 62% das mulheres previam esse conflito, contra apenas 33% dos homens. (Posição 1726)
Nos Estados Unidos, segundo as análises mais recentes, quando marido e mulher estão empregados em tempo integral, a mãe cuida 40% mais dos filhos e 30% mais da casa do que o pai. (...) No Brasil, as mulheres cuidam quatro vezes mais dos filhos e do serviço doméstico que os homens. Assim, embora os homens estejam assumindo mais responsabilidades domésticas, esse avanço tem sido muito vagaroso e ainda estamos longe de uma condição de paridade. (Posição 1838)
Como se não bastasse o abismo entre gêneros, admito, como mulher e mãe, que ter um marido participativo como o meu ao lado não é tão trivial.
Assim como as mulheres têm de ser mais reconhecidas no trabalho, os homens têm de ser mais reconhecidos em casa. Tenho visto muitas mulheres que, sem perceber, desestimulam o marido na hora de fazer sua parte, porque são controladoras ou críticas demais. Os cientistas sociais chamam isso de “fiscalização materna”, um nome bonito para “Aimeudeus, não é assim que se faz! Sai daí e me deixa fazer!”. (Posição 1879)
Criação dos filhos é provavelmente a fonte de maior atrito em meu relacionamento. É um aprendizado diário e constante, é entender que somos diferentes, que enxergamos o mundo de ângulos, às vezes, dissonantes. Admitir que frequentemente não existe melhor ou pior. É um constante ensinar e aprender como casal. É dedicação, paciência, exercício e, acima de tudo, amor. 

2 comentários:

  1. Muito tu, muito eu, muito de todas nós, muito bom!

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    1. Saudade, Deise. Estarei aí em julho! Te aviso. Beijos!

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