quinta-feira, 26 de março de 2015

Mães, seres invisíveis

A mulher que acabou de ter um filho passa por um período de invisilidade. É ofuscada por sua própria cria, que gestou por meses. Um bebê ocupa um espaço inversamente proporcional ao seu tamanho na vida de sua mãe. Este período em que a mulher perde sua identidade é chamado de puerpério.

"Sua vida vai mudar”, é a frase que uma futura mãe mais ouve, em especial a de primeira viagem. Muda mesmo, muito. Tanto, que fica irreconhecível. A mulher que existia ali desaparece e dá lugar a um par de seios do qual jorra um leite poderoso, que alimenta e acalenta, mas que, ao mesmo tempo, pode lhe causar dor. Dor que esquece e enfrenta por saber que seu bebê depende dele. 

Na gravidez, a bela barriga que cresce e gesta uma vida torna a mulher o centro das atenções. Mas nos primeiros meses de vida de um bebê, há uma mudança drástica no cenário. Esta mulher passa a ser “a mãe”, não raro chamada de “mãezinha”, diminutivo injusto frente ao tamanho da responsabilidade. Um bebê lindo passa a monopolizar toda atenção do mundo à sua volta e sua mãe some socialmente. Todo mundo pergunta do bebê, com quanto tempo está, se dorme e mama bem, elogia as dobras e as bochechas, mas pouca gente pergunta sobre a mãe, ou, o que é pior, pouco se nota dela. Nossos olhos tendem a visualizar o pequeno ser banguela e de olhos cativantes e não se dirigem à mãe. Um bebê torna sua mãe um ser sociável num sentido nem sempre positivo: comentários e palpites, nem sempre generosos e delicados, são disparados à mãe, que, novamente, parece não estar ali. 

Muito se fala das alegrias de ter um filho nos braços, mas pouca gente menciona as inseguranças do puerpério. Ficar isolada entre quatro paredes, sem saber ao certo a demanda do bebê, ouvindo palpites de parentes e amigos. Mulher que outrora era tão dinâmica, se descobre insegura. Sua auto-estima é abalada pela mudança física que passou com a gestação. Suas roupas não cabem no corpo que mudou de forma, a amamentação restringe seu guarda-roupa. Sua rotina passa a ser toda em função do bebê: as mamadas, o banho de sol, as trocas de fralda, o banho. A ida ao pediatra passa a ser um grande acontecimento, mesmo que ele também não a “enxergue”, não pergunte dela. Suas refeições podem ser interrompidas por um choro e sua comida, ingerida fria. Aprende a fazer tudo com uma mão, enquanto a outra, segura o bebê.

Eu, mãe recém-nascida, com Max, meu primeiro filho.
Camisa aberta era uma constante nos primeiros dias,
além do fiel "kit amamentação" sempre do lado.

Nas madrugadas, existe uma população de mães que acorda ao menor gemido e atende a todos os chamados de fome, já que os pequenos estômagos não comportam a quantidade de leite que os deixe saciados por uma noite inteira. Ninguém vê sua dedicação noite adentro, na penumbra. 

Ela mesma percebe que a mulher que existia antes do bebê sumiu. Não tem mais assunto: se pudesse, falaria por horas sobre a maternidade. É um acúmulo de emoções e sentimentos, quer compartilhar, mas sente-se sozinha porque considera que está monotemática: seus amigos se entediariam com sua conversa. Suas amigas que têm filhos estão trabalhando. Está invisível e solitária. 

PUÉRPERA é uma palavra de deveria fazer parte do “dicionário de palavras que soam estranho”. Proponho chamá-la de "mãe recém-nascida", que além de soar melhor, traz uma carga de afetividade que combina mais com este período tão intenso e único na vida de uma mulher.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Primeiro cinema patrocinador!

Parceria boa é aquela em que todas as partes envolvidas ficam felizes. Óbvio, não? Normalmente, os shoppings centers patrocinam a expansão regional do CineMaterna e com os cinemas, temos uma troca não comercial. Assim, levamos um público que não estaria nos cinemas, em um horário com menor fluxo de pessoas. Em troca, os cinemas ajustam a grade de programação para nos atender.


A Topázio Cinemas foi a primeira rede a investir em sua própria sessão. De Indaiatuba (SP), pediu o CineMaterna no complexo que fica no Polo Shopping. Assim, chegamos a esta cidade de 226 mil habitantes, em uma sessão emocionante, que superou as expectativas. Como fica na região de Campinas, cidade próxima e grande, achamos que haveria muitas mães campineiras. Mas não! Apenas uma viajante, as demais, mães indaiatubanas! Prova de que mães com bebês, ávidas por um programa para si, existe em todos os recantos.

O que me encantou neste lançamento? Os sorrisos das mães. Eram muitos a se registrar, fartos e lindos!


Paulo Lui, sócio do cinema, agradecendo o carinho das mães










Victoria Delamana, do marketing da Topázio Cinemas
(ainda não é mãe, por isso estava séria, rs)
Equipe Indaiatubana, toda sorrisos, tem como não ser assim? 

Antes que você pergunte: claro que queremos ir para a sua cidade que ainda não tem CineMaterna! Vamos batalhar para proporcionar mais sorrisos maternos Brasil afora (ou adentro!).

Mais fotos deste lançamento AQUI

quarta-feira, 11 de março de 2015

O direito de escolha

Por Carlos Eduardo Corrêa, pediatra e neonatologista (USP/SP).

Acompanhei com curiosidade toda a polêmica envolvendo a exibição do longa Cinquenta Tons de Cinza em sessões do CineMaterna. Assisti ao filme e fiquei surpreso em ver que as mães que escolheram assistir ao filme estavam sendo criticadas por irem com seus bebês de colo. Não, críticas às mães não são novidade. 
Sou pediatra e, no consultório, acompanho diariamente famílias que convivem com críticas ao colo, às atitudes da mãe e do pai, à presença da criança em espaços públicos, à exposição do corpo da mulher que amamenta etc. 
Na minha opinião, há uma certa confusão de conceitos. Bem-estar e segurança só podem ser transmitidos por uma mãe feliz e de bem com a vida. Bebês recorrem às suas mães para reconhecer que este mundo é seguro, pelo menos enquanto estão incapazes de fazer isso sozinhos. Através do olhar confiante de suas mães, os bebês percebem segurança e bem-estar. 
Foto tirada em um CineMaterna em 2014
Mas não estamos falando de mundo “perfeito", muito menos de vida “perfeita". Essa pretensa santificação da relação mãe-bebê não deixa espaço para todos os sentimentos e desejos humanos. Uma mãe não deveria viver em clausura. 
Uma mulher que nasce como mãe não está condenada a padecer no paraíso. Pelo contrário. Ela está convidada a viver sua vida da forma mais digna e correta, como exemplo de mulher, de ser humano para seu filho. Isso não a coloca num lugar reservado, pudico e careta que não seja sua própria vontade e verdade. Isso não impõe a ela certos e errados e não a impede de ter o direito de escolha em situações nas quais se sinta segura e confiante.
Acho interessante rever conceitos moralistas sobre o direito de escolha das famílias, para que possam viver plenamente seu nascimento e construção. Há vários tons possíveis de educação, que não deixam de refletir os tantos tons da nossa rica cultura. O tom que exclui da vida em sociedade os pais e seus bebês me parece bem cinza.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Qual o tom?

50 Tons de Cinza passa pelos critérios para entrar em cartaz no CineMaterna tranquilamente. Ninguém sai do filme traumatizado ou com imagens fortes na cabeça, simplesmente porque não há nada do gênero. Estamos bastante seguras de que não estamos fazendo nada de errado, nem imoral ou ilegal. O filme é 16 anos, não tem conteúdo visual explícito, a versão filmada é muito mais tênue que o livro (leia crítica sobre isso). O livro é muito “gráfico”, muita gente leu e sabe que tem conteúdo sexual forte. Daí, assumiram que o filme seria assim e criticam o fato de entrar em cartaz no CineMaterna. Sem contar os protestos questionando o conteúdo moral do filme.

Cada complexo de cinema tem enquete para as mães escolherem o que querem assistir. São poucas sessões, queremos que o filme agrade à maioria. Entra em cartaz o mais votado (salvo raras exceções, por questões operacionais com o cinema). Recordando os critérios de pré-seleção de filmes: nosso foco é saber se o filme pode, de alguma forma, agredir a mãe. Uma mulher no pós-parto pode estar mais sensível que o habitual e esse é o nosso guia. Evitamos os excessos de violência e tensão, além de qualquer pitada de tragédia com bebês ou crianças. Ainda assim, há filmes “badalados”, com algum conteúdo explícito e que muitas mães querem assistir, que podem entrar em cartaz. Nestes casos, ressaltamos sobre o conteúdo em nossa comunicação, sugerindo a quem estiver sensível que não assista.


CineMaterna são sessões de cinema para MÃES com bebês de até 18 meses. O filme e o programa são para ELAS, com ambiente cuidado para que possam ir com seus bebês. Notamos que até os dois anos, bebês não prestam atenção no filme, não se concentram para tanto. Como margem segura, estabelecemos que o limite no CineMaterna é 18 meses. Sim, observamos bebês olhando para a tela, como se estivessem assistindo. Nossa opinião: bebês ficam fascinados pelo enorme telão que emite som e luz em movimento. Não acompanham o enredo e não veem a imagem como a "lemos" através de nossos filtros culturais. Pode ser até um filme infantil e, ainda assim, bebês não assistem. A imensa maioria olha para a tela por alguns minutos e, passado o fascínio, se vira para fazer outra coisa - ou dorme, ou resmunga, ou chora, ou brinca com outro bebê ao lado, ou pede para mamar. Os maiores saem caminhando pela sala: sobem e descem as escadas, vão xeretar os carrinhos de bebê estacionados, tentam "fazer amizade" com outro bebê ou adulto.

Dito isso, ressaltamos: cortar 50 Tons do CineMaterna não seria coerente com o que fazemos e seria censura. Isso sim, seria agressivo. Nosso foco são as mães recém-nascidas que estão sensíveis, mas querem se manter atualizadas cultural e socialmente, exercendo seu direito de escolher assistir ou não a um filme.