sábado, 29 de novembro de 2014

Besta me perseguindo

"Você tem algum problema com o número 666?", me pergunta a recepcionista do hotel em Salvador, na Bahia, para onde fui acompanhar uma sessão. "Depende. Tem vista pro mar?". No que a atendente diz que sim. "Então não tenho [problema com o número]". Para quem não sabe, 666 é considerado o número da Besta, citado na Bíblia.

Linda vista do quarto 666


Passei duas agradabilíssimas noites neste quarto, o evento foi lindo (fotos aqui), nada aconteceu com o carro que eu aluguei, enfim, tudo nos conformes, o número não me atrapalhou. 

Ao chegar em São Paulo, no táxi para casa, vejo o seguinte, bem à minha frente:


O motorista do táxi, assim como eu, não tem problema com o número. Pelo contrário, lhe deu o privilégio de me ter como passageira! #modesta, hehehe.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Era Uma Vez...

Texto originalmente publicado na revista Pais & Filhos, edição de novembro de 2014.

Max (esq), o apaixonado por histórias,
entretido com seu irmão Eric
- Mãe, conta uma história?

Ouço esta frase várias vezes ao dia. Às vezes é um pedido mais específico, algo como "conta a história do monstro submarino contra o dragão chinês". Mas no começo, era genérico, um simples conta-uma-história. Do nada, sem tema, sem contexto, nenhuma dica. Lembra da redação de tema livre? Para mim era um sofrimento estar diante daquele papel em branco pedindo para ser preenchido.

Hoje, mãe, continuo com receio da redação. Essa coisa de inventar história não é comigo. Uma amiga me disse que também não é boa de inventar histórias e acabou desenvolvendo a técnica de falar de sua infância, de suas travessuras. Seus filhos morrem de rir, afinal, para eles é muito engraçado pensar que sua mãe já foi criança e que, ainda por cima, aprontava. 

Na verdade, falar não é meu forte. Adepta do lema dois-ouvidos-e-uma-boca, sou muito melhor ouvinte. Junte isso ao pânico da redação sem tema e pronto, armado o cenário para a penitência materna, minha armadilha, a hora de me sentir incapaz.

Meu filho mais velho, Max, ama ouvir histórias. Pede na hora de dormir, pede no carro, pede enquanto caminhamos, pede enquanto faz um (sempre demorado) cocô. É incansável, não enjoa, não desiste. Acostumada com as mudanças de gostos dos meus filhos, fiquei esperando que fosse uma fase e que, como vários de seus interesses, aquilo passasse. Mas não, ele gosta mesmo, não mudou.
Pois é, não aprecio contar história. Com tema ou sem, curta ou longa, com vários ou escassos em personagens, com efeitos especiais ou não. Não gosto, me cansa, tenho preguiça. Meu marido é um excelente contador de histórias, as mais absurdas, criativas e lindas. Em qualquer hora, em qualquer lugar, com qualquer tema.

Quando Max começou com esta de conta-uma-história-aqui-e-agora, confesso que por vezes me irritava. Ele insistia, às vezes eu cedia, mas com o tempo, percebi que não sentia prazer naquilo, virava uma obrigação, quase uma tortura. Ainda mais que eram algumas vezes ao dia. Era penoso admitir aquela falha no meu currículo materno. Aqueles olhos curiosos e sua voz de criança  aumentavam ainda mais meu sentimento de culpa. Quando ele pedia para o pai, então, era pior ainda, me sentia derrotada. Batia um peso na consciência, sofria, tinha a sensação de que não havia me esforçado o suficiente, afinal, poderia falar qualquer coisa que a questão estaria resolvida.

Aos poucos, após refletir (e me irritar e me chatear e me culpar) muito, entendi que não precisava dar conta de tudo. Sim, meu filho gosta de ouvir história e seria muito bom se eu conseguisse satisfazer esta sua vontade. Mas era ilusão achar que bastava um esforço para superar esta barreira. Contar história exige muito mais que simplesmente soltar palavras, por mais maluco que seja o enredo. Exige que partilhemos de um sentimento, de um prazer, de um olhar, é um abraço regado a palavras.

Abdiquei do posto de mãe-faz-tudo e entendi que tem coisas que não faço e ponto. Resumo em uma página o que me levou alguns anos para aceitar: que há aspectos da maternidade que não estamos a fim de encarar. Afinal, sou ótima para jogar, cantar, abraçar, correr, ler livros, dançar, pular, beijar, entender quando algo não vai bem, além das inúmeras questões práticas no cuidado com os filhos.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Como você faz?

Por Ligia Ximenes

Decidi fazer pras minhas amigas mães a pergunta que me acordava toda madrugada, junto com a bebê de cinco meses. Como você faz pra conciliar o trabalho com os cuidados com a família? Não é um desafio só meu, né? Antes de mim, e ao meu lado, milhões de mulheres encontram suas fórmulas e fazem dar certo. Então, no quadro “no que você está pensando?” do meu facebook, lancei a pergunta. Assim: “às mães que trabalham: quais os seus esquemas para conciliar maternidade com a vida produtiva? Quanta ajuda é necessária? Não precisa ter filho pequeno pra compartilhar suas lições”. E olha, foi lindo. Brevemente, reúno algumas das coisas que me marcaram mais:

- independentemente dos arranjos, ninguém disse que é fácil.

- teve a amiga não mãe que me alertou pro fato de que minha vida é produtiva e que provavelmente eu estava falando de trabalho remunerado. E não é que ela está certa? Produzo cardápios, lancheiras e refeições, garanto o abastecimento da geladeira, preparo banhos quentinhos, organizo os cantos de brincadeira etc. Acolho o mau humor, assopro os dodois, faço massagens e cabaninha. Cuidando das minhas meninas, eu engravido o presente de futuro.

- teve a amiga não mãe que marcou uma amiga dela para se juntar à conversa. Ela ainda não se manifestou. Deve estar atribuladíssima entre fraldas e planilhas.

- ao longo dos dias, inúmeras amigas descreveram suas rotinas. Mães de um, dois, três filhos. Mãe solteira. Mãe casada. Mãe empregada. Mãe empreendedora. Mãe em tempo integral. Amigas que eu não vejo desde quando nem éramos mães. Outras que eu conheci depois de me tornar mãe. Amigas que moram longe. Outras num raio de até dez quilômetros. Gostaria de um dia poder promover um encontro olho no olho com esta gente toda.

- teve a mãe, amiga recente, que me mandou uma FOTO da estação de trabalho dela. Com o nenê dormindo no colo, entre almofadas de diversos tamanhos, enquanto ela dá conta dos seus compromissos profissionais.

- teve a amiga que me dedicou três horas da manhã dela pra um café da manhã demorado e uma conversa gostosa que só.

E teve, pra encerrar, a mãe que me fez chorar. Ela me contou que, quando foi visitar a avó do marido, 93 anos de vida, e já senil, recebeu dela o seguinte pedido: “eu quero a minha mãe”. O que pra mim dá a medida exata do lugar que a gente ocupa na vida de um filho. Nos dias em que os meus esforços parecerem maiores, espero poder me lembrar disso.

E você? Como faz?

Nós aos pés de uma sequoia de 2 mil anos.
Sabe o que ela me disse?
"Minha força é a confiança".

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Bom dia, boa noite

Há muitos motivos para assistir a Mil Vezes Boa Noite. Tem Juliette Binoche, garantia de uma atuação impecável. No filme, ela é mãe e profissional requisitada.

Considerada uma das melhores fotógrafas de guerra em atividade, Rebecca (Juliette Binoche) precisa enfrentar um turbilhão de emoções quando seu marido (Nikolaj Coster-Waldau) lhe dá um ultimato e, junto com a filha, exige que ela deixe de viver esta rotina arriscada.

O dilema é conhecido: maternidade versus profissão. Ela, fotógrafa, registra as tragédias do mundo e por meio destas imagens, faz diferença. Seu trabalho é reconhecido e é tão parte dela como ser mulher e mãe. Na mesma medida.

Bem colocou Ricardo Calil em seu texto na Folha de São Paulo (texto na íntegra aqui): se o dilema fosse com um homem, seria tão complicado?

O filme é belíssimo. Além da história em si, sem respostas fáceis, a fotografia é marcante, já que o diretor do filme é ex-fotógrafo de guerra.

Para não estragar o filme, não posso contar mais detalhes aqui, mas há uma passagem emblemática em que ela coloca a vida em risco, jogando-se diante do perigo. Estava pensando que hoje, depois de ser mãe, não tenho medo de morrer, mas morro de medo de perder um filho. Talvez esta reflexão tenha saído porque ontem faleceu o filho de um amigo, no auge de sua juventude. Fiquei paralisada em imaginar a dor da mãe. Imaginar, porque nesta hora, a empatia é apenas uma fração da realidade.

Um dos temas deste filme é o terror do rompimento deste laço profundo mãe-filhos. Para sobreviver ao medo paralisante, vivemos. Com amor, carinho, e muito, muito afeto.