segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Vida empreendida

Tive filhos tarde, com a carreira consolidada. Depois de alguns anos “perdida” em grandes empresas, optei por uma mudança de rumo e passei a ser autônoma, topando ganhar bem menos. Tinha encontrado algo que gostava de fazer. Achei que podia ter filhos e seguir com o que fazia antes, sem grandes alterações.

Só que com um filho, veio uma nova vida que, por mais que eu tivesse me preparado, trouxe surpresas. Não sofri do isolamento típico da fase inicial da vida de mãe porque me mantive conectada no mundo virtual. Isso me proporcionou encontros e permitiu desabafos, como aquele em que falei sobre minha saudade de ir ao cinema. Foram elas, aquelas mulheres no espaço cibernético, que tiveram a ideia maluca de tentarmos ir ao cinema com nossos bebês. E foi meu espírito “fazedor” que organizou a primeira ida ao cinema - e continuou a promover os encontros semanalmente, mesmo que eu fosse sozinha com meu filho.

Nos tempos de "guerrilha", em fevereiro de 2008.
No alto, à direita, Elly Guevara, que criou o nome CineMaterna.
Eu no centro, na fileira de baixo, com Max no sling verde.
Foto: arquivo pessoal

Não sabia, naquela época, que estava usando minha experiência profissional para dar impulso ao meu programa de lazer preferido. Intuitivamente, fiz pesquisa sobre outras sessões de cinema amigáveis para mães com bebês no mundo, fui a uma em Nova York, inclusive, quando estava na cidade a passeio. Desenhei um projeto do que seria o CineMaterna "ideal", queria ir ao cinema em condições mais adequadas para meu bebê.

Meu filho estava com quase um ano e surgiu uma proposta de trabalho. Achei que estava na hora de deixar aquele lazer que tinha me proporcionado tantas alegrias e encontros. Estava me despedindo do grupo formado, "passando o bastão" para outra pessoa coordenar as sessões, quando recebi o conselho de tornar o CineMaterna meu trabalho. Aquilo me balançou. Afinal, o que seria este trabalho? Como ser remunerada por ele? A decisão era mergulhar ou não de cabeça na loucura, no incerto, no indefinido.

Quando conversei com a Taís Viana, que também fazia parte do grupo das "guerrilheiras invasoras de cinema", ela propôs irmos juntas à direção da rede de cinemas apresentar o projeto. Nos conhecemos grávidas, na aula de yoga e, apesar da convivência, não sabíamos muito uma da outra.

Quais as chances de duas pessoas que mal se conhecem formarem uma parceria que dá certo? Nossas experiências somadas davam um bom caldo. Taís é empreendedora nata. Se para mim, aquele início de CineMaterna trazia uma série de inseguranças, para a Taís, era um estímulo.

Taís e eu, no cinema, claro, em foto de divulgação.
Foto: Karin Michels

O primeiro ano foi bastante difícil: um filho crescendo, uma casa (e um marido, rs) para gerenciar e tocar um negócio que não tinha modelo de gestão, nem remuneração, mas que exigia investimento financeiro e de tempo. Eu, medrosa, estava enfrentando meu maior desafio: acreditar no que criamos e torná-lo viável, sustentável. O pensamento que me guiava, que me ajudava a seguir em frente, mas ao mesmo tempo, era um tanto pessimista, era de que, se o CineMaterna não desse certo, pelo menos, tinha criado algo que tinha sido bacana, que ajudou muitas mulheres e que mudou minha vida, mesmo que temporariamente.

Com Max no colo, no lançamento do
CineMaterna "oficial" em agosto de 2008
Foto: Guga Ferri

É engraçado fazer esta retrospectiva hoje, cinco anos e mais de 30 cidades depois. Muitos obstáculos já foram superados, passamos por decepções, enfrentamos problemas e tensões, mas essencialmente, acertamos. Aprendemos, Taís e eu, uma com a outra, pelas nossas diferenças e semelhanças. Fazemos questão que nosso cotidiano seja recheado de risadas e mantemos nosso compromisso de fazer algo que mude um pouco o mundo, o nosso, da equipe e o do público.

Nossa história de empreendedorismo é um tanto incomum. Não cheguei a entrar em crise profissional em função da maternidade. Não planejei empreender, mas o empreendimento chegou a mim por acaso. Aliei a sorte de encontrar uma boa parceira, à minha experiência e perfil profissionais, uma equação que fez a diferença na hora de mudar, mais uma vez, minha carreira.

Agora, com Eric, segundo filho, em Santos,
em janeiro de 2011.
Foto: arquivo pessoal

Obs: este post foi inspirado pelo lançamento do livro “Minha Mãe é um Negócio -  Histórias Reais De Mulheres Que Abriram Suas Empresas Para Ficar Mais Perto Dos Filhos" (editora Saraiva), de Patricia Travassos e Ana Claudia Konichi. As autoras entrevistaram diversas mulheres que foram empreender depois de se tornaram mães, quase sempre buscando conciliar melhor a carreira e a maternidade. O livro não traz receita pronta, nem tem a intenção de ser um manual. Traz dados interessantes tanto sobre maternidade, quanto sobre empreendedorismo, ilustrando com depoimentos nos diversos tópicos.

Um comentário:

  1. Ainda bem que você teve essa iniciativa. Com certeza foi uma das melhores descobertas depois que o Gui nasceu. E hoje decidi fazer uma homenagem a vocês em um blog que estou iniciando com dicas de lugares Babyfriendly. Inclusive se quiser me ajudar dando dicas ou fazer uma postagem, agradeço bastante :)

    http://lugaresbbf.blogspot.com.br/2013/11/cinematerna.html

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