domingo, 4 de setembro de 2011

Culpa visceral

Domingo passado, Alexandra, Camila, Gláucia e eu marcamos de jantar somente as mulheres, sem crianças e maridos, para nos despedir da barriga da Gláu - a barriga ainda está aí, Rafael está com preguiça.

Na quarta, Alexandra, Gláucia e eu fomos a uma cidade próxima de São Paulo fazer vistoria em cinema e entrevistar mulheres para a equipe. Trabalho de um dia inteiro, terminou pouco depois das 18h. Já prevendo o horário de término, combinamos de jantar calmamente e só sair quando passasse o congestionamento.

João, com Max (em pé) e Eric
No jantar, Alexandra comemorou que era a segunda vez na semana em que estávamos fazendo uma refeição tranquila, regada a um bom bate-papo. Comentei que ao sair pela manhã e avisar meu marido, João, que as crianças ficariam com ele à noite - o que já tinha acontecido no domingo - senti culpa por achar que estava abusando.

Culpa: substantivo feminino (dicionário Houaiss)
1    responsabilidade por dano, mal, desastre causado a outrem 
2    falta, delito, crime

Estava deixando as crianças com ele por algumas horas pela segunda vez em (muito) menos de uma semana! Um crime, não acha? 

Por sorte, tive a sanidade mental de perceber o ridículo da situação: eu fico com as crianças sozinha no mínimo três vezes por semana, todas as semanas, porque o João chega tarde do trabalho. E às vezes, nem é trabalho: na terça ele tinha ido jantar com colegas. 

No meu caso, tenho um marido muito parceiro, trocador de fralda, banhador, alimentador e trocador de criança, incansável contador de histórias, cuidador para qualquer hora. Não reclama jamais quando peço que fique com as crianças. Claro que ele faz suas trapalhadas: coloca roupa que não combina, vez ou outra esquece de alimentar ou oferecer água, já fez uma mala faltando o essencial. Mas tenho certeza que se as crianças vivessem apenas com ele, sobreviveriam - e muito bem criadas. 

Então por que o peso na consciência, qual o motivo de tamanha culpa em efetivamente dividir a responsabilidade? Às vezes acho que brinco de dividir: ele troca algumas fraldas, dá alguns banhos, alimenta de vez em quando, mas na hora de EU ter os meus momentos, abro mão com a desculpa (esfarrapada) de não sobrecarregá-lo. Que herança ancestral será essa? 

Depois que fui mãe, percebi que relaxei em algumas características minhas: organização, pontualidade e limpeza não têm mais o mesmo padrão rígido que tinham antes. Bagunça faz parte, atrasos acontecem e tem sujeira, mancha ou migalha aqui e ali. Ter a vida invadida por mais vida tem estas e outras consequências: o amor é infinito, o cordão umbilical não se rompe. Entendi (pelas entranhas) o sentido da palavra visceral. 

É isso: acho que culpa faz parte do íntimo de uma mãe. E como tudo que está enroscado em nossas profundezas, é difícil de lidar e explicar. Afinal, qual mãe é explicável? 

João equilibrando dois filhos


4 comentários:

  1. deveria ter culpa por não ter me chamado para o jantar, isso sim! bj

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  2. É complicado mesmo... nos sentimos culpadas por tudo, até pelo que não temos culpa!
    Beijo

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  3. Acho q vou parar de ler aqui... não vou dar conta da enchente!

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  4. adorei o texto. sinto e passo pelas mesmas coisas. obrigada irene! bjs

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