segunda-feira, 23 de abril de 2018

10, dez, X - anos

Em 2018 o CineMaterna faz 10 anos! Pois é. D-E-Z. Impressionante, não? Não sou nada ligada em datas comemorativas, mas não seria perdoada se não festejasse de alguma forma.

Dando início à celebração, um selo comemorativo, apresentado aqui em primeira mão.


A gente comemora, mas não com rojões que acordam e assustam os bebês. Tem é muito amor no ar e um sorriso no rosto para proporcionar leveza às mães recém-nascidas. 

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Quem tem filho, quer colo

Lígia, decidida a sair de casa, coloca seu macacão jeans, veste Alice de vermelho e segue para o shopping. Assistir a um filme é seu anseio. Ainda mais o que levou o Oscar!

Apesar de insegura, ela segue firme e forte seu propósito e, segurando Alice nos braços, compra seu ingresso.

Ela respira fundo e se senta na poltrona escolhida. Após uma hora, no entanto, a inquietação da filha a faz levantar e abandonar seu lugar.

Lígia pensa que partir para casa é sua única opção. Mas, ao tomar o caminho de volta e passar pela porta do cinema, uma pessoa trabalhando silenciosamente no celular interrompe sua partida.

Uma pausa para entender o que se passa e... bingo! A inquietação do bebê é também a da mãe, que sente que apenas a sua filha solta pequenos ruídos durante a exibição do filme, causando desconforto aos outros.

Logo percebo que a mãe precisa de colo, ser acolhida. Ela, assim como eu e certamente como você, passa pelas inseguranças do pós-parto. É quando nos damos conta de que nossa vida nunca mais será a mesma... E não será mesmo! Garanto que se tornará melhor!

A maternidade nos torna mais fortes e, ao mesmo tempo, nos vemos impotentes, julgadas. Contudo, muitas vezes, podemos contar umas com as outras!

Foi assim que embalei Alice no colo e Ligia, nas palavras. Respirando fundo, ela voltou à sala de cinema. Ficamos juntas, em pé no corredor, e novamente a pequena resmungou; rapidamente a embalei e a devolvi para o colo de sua mãe. O filme acabou, Alice finalmente se entregou e dormiu – algo que parecia impossível meia hora atrás, mesmo no peito de sua mãe.

Fiquei feliz em ver mãe e bebê num momento de rendição, relaxando e, ao mesmo tempo, entrando em sintonia.

Assim que as luzes se acenderam, Ligia despejou mil palavras de carinho. Seus olhos marejaram como os meus. Não fiz aquilo só por ela, fiz por mim e por você. 

Eu já fui Ligia, e hoje aprendi a acolher: você também passará por isso.

Afinal, só as mães sabem das dores e das delícias de ser mãe.

Texto escrito pela Gláucia Colebrusco, na foto ao lado, com uma mãe (que não é a Ligia do texto). Gláucia supervisiona as voluntárias do CineMaterna, e sempre, sempre está preparada para acolher uma mãe, no cinema, ou fora dele. 

segunda-feira, 26 de março de 2018

Todas as tribos

Definitivamente, não sou um ser lá muito sociável. Se você encontrar comigo, não me classificará como tímida, mas é só uma casca. Converso com estranhos, sem problemas, mas aprecio em demasia meus momentos solitários ou com a família.

Só que no puerpério do meu primogênito, fui outra pessoa. Talvez os hormônios tenham me transformado em uma pessoa social, não sei. Lembro que na gestação fui com meu marido em um grupo de apoio à maternidade ativa, em busca de informações sobre parto. Haveria uma roda de conversa dali a uma hora, mas meu propósito era apenas uma consulta com a doula. Ela nos convidou a ficar no bate-papo e enquanto eu pensava em uma forma de agradecer polidamente, meu marido disse "claro, ficaremos!". E foi naquele grupo de gestantes, em encontros semanais, que fui visualizando o que me esperava no parto, pós-parto e amamentação.

Ainda assim, aquela "preparação para virar mãe" não me deixou totalmente "pronta". Ali, entendi: nenhum curso, nenhum conselho, nenhum grupo de apoio ensina a ser mãe e a enfrentar o peito que dói, os hormônios desequilibrados, nosso estranho corpo pós-parto, os sentimentos ambíguos entre o mais profundo amor e a exaustão das noites mal dormidas. E a solidão.

O que percebi é que no puerpério, o que mais me ajudou foram os encontros pós-parto. Fosse em grupos formais, encontros temáticos para recém-mães, fosse com ex-barrigudas dos grupos de parto. Ali nasceram amizades e um lazer "inventado" que virou um trabalho, um tal de CineMaterna.

Eu no meio, com meu primeiro filho com cinco meses,
entre Relze, à esquerda, e Ana Letícia, à direita,
em um dos muitos cafés pós-cinema, em 2008

Encontre sua tribo. De preferência, cara a cara, olho no olho, mão na mão. Porque na hora do aperto, um ombro amigo e um colo fazem toda a diferença nessa jornada materna.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Por que é CineMATERNA?

Excluímos os homens da jornada de criação de filhos quando nos chamamos de CineMATERNA? E a paternidade ativa, minha gente?

O fato de ter materna no nome não exclui os pais, mas reflete sobre um papel feminino de gestar, parir, amamentar e se conectar visceralmente com um bebê. Acreditamos, incentivamos, admiramos a divisão igualitária entre mãe e pai nos cuidados com o bebê, no vínculo, nas responsabilidades.

Tenho um marido ultramegaplus parceiro. Às vezes, tenho a impressão de ele ser mais presente do que eu na convivência dos filhos. Quando meu primeiro filho nasceu, ele tirou um mês de férias. Foi ma-ra-vi-lho-so. Ele deu todos os banhos e trocou todas as fraldas. Não me largou em casa para sair com os amigos, não foi viajar sozinho, não teve happy hour. Ficou conosco, lambendo a cria e curtindo a família. Adorei a companhia, as refeições que preparou, o cuidado que tinha ao me ver amamentar. Passeamos juntos, nos conhecemos como nova família. E mesmo com um marido tão presente, na madrugada, era eu quem acordava, pois o peito que amamentava era meu. O corpo do pós-parto, que ficou um tanto judiado por consequência de um longo e exaustivo parto, fui eu que encarei. O humor oscilante, a sensibilidade exacerbada, o corpo diferente, o dilema da volta ao trabalho, tudo era exclusivamente meu - como os cabelos que caíram aos tufos.

Cenas de puerpério no CineMaterna
Fotos de arquivo

Mulheres compartilham seu puerpério com os maridos na convivência e no relato. Mas quando encontram outras mulheres, também mães recém-nascidas, a empatia é imediata, mesmo que algumas crenças sejam diferentes. Dividir sensações, experiências, questionamentos e angústias maternas com outras mulheres traz uma certa leveza e sensação de normalidade. Independentemente das escolhas particulares da maternagem, temos muitos pontos em comum, inclusive, a solidão dos dias que passamos sozinhas com um bebê. E nesta fase, ficamos ainda mais distantes dos homens porque a licença-maternidade é de quatro a seis meses contra cinco - dias - dos pais.

Por tudo isso que acreditamos sim, que nosso Cine é MATERNA. 

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Amor em forma de elogio

Nosso cotidiano é repleto de correria, de pressa, de um milhão de pendências. Assim é o nosso dia-a-dia, o seu, o do mundo. Parece que avidez e agitação são sinônimos de viver, ainda mais em grandes cidades. É bom um tanto de animação, sim, mas manter-me conectada com as pessoas, de fato, é um um desafio. Lembrar que não são apenas atividades a cumprir, mas relações pessoais que devem ser nutridas. "Olho no olho", me esforço em lembrar.

Ontem o Shopping Metrô Tucuruvi, em São Paulo, convidou as mães para um espaço recém-inaugurado, onde poderia recebê-las com um lanche, em um local privativo e confortável às famílias. Seria depois do filme, para elas relaxarem, papearem, se conhecerem. Fomos em grande equipe para dar um apoio, conhecer o espaço e ver a dinâmica das mães.

A sessão estava quase lotada, o que nos deixou um pouco tensas quanto à capacidade do espaço VIP, que não é grande. Aliás, nossa vida é assim: ficamos apreensivas quando tem baixo público e também quando tem muita gente. Quem trabalha com eventos sabe do que estou falando.

Deu certo, na medida. Não falo apenas de lotação, mas principalmente, em termos de carinho, para as mães e para nós, do CineMaterna.

Normalmente estou na correria, nos aspectos práticos para fazer a sessão acontecer de forma que as mães se sintam acolhidas. Quando chegou a hora do bate-papo, relaxei ao constatar as mães felizes. Foi o momento de nós, do CineMaterna, ouvirmos as mães, olharmos com carinho para elas. E o que recebemos, foi lindo. Depoimentos sobre a alegria de descobrir o CineMaterna em um momento tão difícil quanto lindo, o puerpério. Em conversas com três mães, me emocionei com seu carinho, quando agradeceram pelo CineMaterna com olhos marejados. Me comovi com suas histórias, suas angústias maternas e os olhares apaixonados de seus bebês para elas. Vínculo nem sempre fácil, mas certamente, essencial para a formação psíquicas destes bebês.

2018, pode vir que já recebi minha dose de incentivo para continuar este trabalho.

O sinal mais claro de que deu certo!

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Uma vida de caos materno

Virada de ano, hora de arrumar armários. Estava rearranjando alguns livros e me deparei com o álbum do partos dos meus filhos. Algo muito íntimo, que não fica na mesa de centro da sala nem em uma estante acessível. São imagens, relatos e reflexões de momentos que marcaram uma mudança radical em minha vida.

Os dois álbuns dos partos de meus filhos, inspiração para este texto

Os nascimentos deles trouxeram uma revolução sem volta. O clichê mais verdadeiro: nós, mulheres que viramos mães da noite pro dia (ou do dia pra noite), nunca mais seremos as mesmas. A maternidade nos desloca por dentro e por fora. Vamos para longe de onde estávamos, para melhor e para pior. Pessoas obsessivas com limpeza e organização, deixam de ser tão... exageradas - ou passam a sofrer mais. Alguns medos diminuem porque precisamos mostrar coragem e dar segurança aos pequenos - mas passamos a ter outros temores.

A maternidade me trouxe o CineMaterna e toda uma nova vida profissional. Mas não falo apenas de profissão. Usei aptidões que estavam dormentes, enfrentei a ansiedade em empreender, usei minha experiência e criatividade para desenvolver um negócio que não existia, junto com pessoas que conheci ao longo do caminho. O CineMaterna me proporcionou (e continua proporcionando) imensas alegrias, mas também muitas, muitas preocupações.

Acima de tudo, a maternidade me brindou com uma diferente perspectiva da vida. Novas amizades surgiram em função do puerpério, da escola das crianças e do CineMaterna. A rotina se altera a cada ano escolar, que traz a necessidade de repensar as prioridades e atividades. Mudei de casa, revirei conceitos de vida. E não, não é como num vídeo game onde cada fase é mais difícil. As fases são diferentes: algumas interações ficam mais fáceis, mas surgem outras que nem imaginávamos existir, nem quão desafiadoras seriam. E grande parte das idealizações, por exemplo, a de que meus filhos adorariam salada (😂), simplesmente se evaporaram.

Os momentos de caos familiar são frequentes e certamente, meu pensamento não é tão linear e reflexivo como escrevi nos parágrafos anteriores. Nestas horas em que estou perdendo a paciência com o filho que se recusa, aos berros, a tomar banho (para depois, não querer sair do chuveiro), ou quando o outro diz que não vai usar calça de jeito nenhum, mesmo estando 15º lá fora (afinal, em casa está "super quente"), o maior desafio é controlar os impulsos de não largar tudo ou falar alguma besteira que eu possa me arrepender depois.

Aí que a gente fica exausta e quer férias. Fica radiante quando consegue armar um esquema com a tia deles. E assim que eles saem de casa, dá uma saudade...

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Quando a diversão é séria

Ainda hoje me perguntam se faço algo "além de CineMaterna". Respondo - nem sempre em alto e bom som, depende do contexto - que não é tão simples organizar mais de 100 sessões de cinema por mês em quase 50 cidades diferentes, gerenciando quase 400 voluntárias.

Além de mim, mais oito mulheres pensam, agem e respiram CineMaterna todos os dias da semana. Formamos o que chamamos de "matriz" da organização. Parênteses: "matriz" vem do latim matrix, que significa mãe, útero. O sufixo "ix" implica em um sujeito de gênero feminino. Um dos significados de matriz no dicionário é "lugar onde alguma coisa se gera ou cria". Nem lembro quando  começamos a chamar a matriz desta forma e foi sem nenhum estudo de etimologia da palavra. As coisas boas de usar a "inspiração instintiva". Fecha parênteses.

Este ano, trocamos a nossa confraternização por um dia de muito trabalho e reflexão conjunta. Fizemos um planejamento para o próximo ano, trocando, criando e opinando. No fim, o resultado foram post-its e folhas de flipchart recheadas de palavras e ideias que queremos implementar ao longo dos anos. Sim, anoS, no plural, porque foram tantas as ideias que faltam pessoas e recursos para implementar tudo.

Então, para quem pergunta, eis a reposta: além de CineMaterna, cuidamos de mães, voluntárias, patrocinadores, apoiadores. Sem contar os filhos, o marido, e, claro, ir ao cinema.

Criação individual antes de compartilhar no grupo 
Bolinhas para votação
(teve gente querendo roubar bolinhas para votar mais vezes)
Por mais que rodemos, sempre voltamos nelas, as MÃES,
nossa razão de existência, sem demagogia
À noite, saímos para relaxar um pouco.
Estendemos o vale-day para um vale-night! ;)

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Entre o passado e o futuro

Faz 10 anos que sou mãe. Não sei se é o número, uma década, ou o tamanho do menino, mas impressiona. Olhar para trás e lembrar que ele foi gestado em meu ventre, recordar as ansiedades pré-nascimento e o puerpério de primogênito - sobreviver a um dia, entender o amor que é acompanhado da angústia de achar que a vida não voltará mais aos eixos.

Um filho com 10 anos, mãos e pés do tamanho dos meus, com vontades próprias, mas ainda aproveitando o aconchego dos meus braços (e eu, o carinho dele).

Max aos 3 meses e agora, aos 10 anos

A cada aniversário eu paro, dobro a idade de meu filho e penso no futuro. Dos 10 anos, pulo para os 20. Um homem feito! Quem será ele? Estará fazendo faculdade? De quê? Quem serão seus amigos? Como será a nossa relação? Quais serão seus gostos, seus afetos, suas posições?

Não cessa de me espantar a velocidade do crescimento, as mudanças de fase, de gosto, de brincadeiras. Fui olhar fotos para ilustrar aqui e me deparei não apenas com filho pequeno, mas mãe e pai dele diferentes também. Quem eu era naquela época e o que mudou? Como serei e onde estarei daqui a 10 anos?

Se você está com um bebê nos braços, naquelas horas mais difíceis, tente lembrar que passa rápido. Se perder a paciência, está tudo bem, da próxima vez você começa de outro jeito e tenta fazer diferente. E não é porque estou dizendo isso que será mais fácil.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Pérolas de viagem

Viagem de trabalho no CineMaterna é rodeado de amor. Fui a Florianópolis na semana passada e fui direto do aeroporto para a sessão. Lá conheci Carol, a nova coordenadora da cidade, entrevistei duas candidatas para a equipe local, acompanhei a primeira sessão da Melina e de surpresa, ainda recebemos a visita da Juliane, voluntária de... Belém! Sim, a do Pará. Não é incrível uma pessoa sair da região Norte, levar na bagagem sua camiseta pink e dar uma pausa nas suas férias para conhecer suas colegas de equipe no Sul?

Melina, super atenta em sua primeira sessão
como voluntária do CineMaterna 
A partir da esquerda: Juliane, Carol, eu, Melina e Mari

Juliane estava em férias, de passagem por Florianópolis, foi visitar a sessão e conhecer a equipe de Florianópolis. Engatamos em um papo delicioso sobre viagens e, como não podia deixar de ser, filhos.

No dia seguinte, fui a Balneário Camboriú, a uma hora e meia de Florianópolis, para acompanhar a caçula das cidades que recebem o CineMaterna.

Da janela do ônibus entre as cidades, ainda em Floripa

Na equipe de Balneário, encontrei a Fernanda, coordenadora da cidade, com seu crachá e camiseta "perolados", dando um novo significado para "vestir a camisa".

Fernanda e na foto de baixo, detalhe das pérolas


A sessão transcorreu sem problemas e com muita fofura:



Quando o CineMaterna começou, há nove anos, não imaginava uma viagem a trabalho assim, rodeada de carinho, encontros e papos. Claro que é muita responsabilidade, mas poder fazer isso com leveza e amor, colecionando boas histórias, é um enorme privilégio.

De quebra, ainda tenho esta visão belissíma da ilha de Florianópolis,
a partir do avião

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Memórias do leite

Vida materna tem coisas assim: a gente passa os dias repetindo gestos peculiares e muito típicos de uma fase. Passam alguns anos e nos esquecemos completamente. Alguns são amorosos, outros irritantes. Cheiros, sons e texturas que marcam uma fase da maternidade, em um período em que os sentidos estão aguçadíssimos.

Outro dia, fotografando uma sessão, me deparei com o "acessório" abaixo, à direita:


Um absorvente para seios. Ver um desses traz à memória uma série de lembranças. Usei por mais de um ano no primeiro filho e alguns meses no segundo, o que me deixou com a ideia romântica que meu corpo se adaptou à quantidade de leite a ser produzido. Se é isso mesmo ou não, não sei. Não era muito fã do absorvente, era um passo a mais na amamentação: tirar do seio e ficar segurando - ou colocar em algum lugar, como no bolso no sling. Sim, claro que perdi alguns e fiquei elocubrando o que pensaria a pessoa que os encontrasse.

Enquanto algumas mães que amamentam nunca chegam a necessitar de um absorvente para seios, outras "vazam" sempre. É fascinante ver que o bebê pega em um peito e, ao começar a mamar, o outro começa a pingar leite. Às vezes, jorra, esguicha, uma imagem que só quem acompanha um puerpério na intimidade, presencia.

Tem o formigamento no seio, alguns segundos ou minutos após o bebê começar a sugar, sinal do leite que está vindo. Aí vem o olhar, os gestos, a relação, o vínculo com o bebê, que, ao mamar, ri, mordisca (com gengiva ou com dentes), fala, passa a mão no nosso rosto, larga o peito e o deixa exposto. Meu segundo filho tinha mania de ficar mexendo no bico do outro seio. Era um tanto irritante, apesar de hoje, eu lembrar disso com carinho.

Esse segundo filho, aliás, mamou de um peito só, o esquerdo. Esta jornada rumo ao único seio foi curiosa. Desde recém-nascido ele "reclamava" ao ser colocado no seio direito. Ficava inquieto, chorava. Na ânsia de alimentá-lo, colocava-o do lado esquerdo. Quando percebi, ele só mamava no seio esquerdo. Lembro-me de ter ficado contente com o lado que ele escolheu porque assim, ficava com a mão direita livre para comer. As sutis alegrias do puerpério. Em poucos meses o seio direito regulou a produção à nenhuma demanda e diminuiu de tamanho, enquanto o esquerdo estava enorme. A consequência é que eu tinha o seio esquerdo muito maior que o direito - e o pavor de ficar assim pra sempre. Logo descobri que não havia este risco, "voltei" ao normal, finda a amamentação.

Sou sortuda, não tive grandes dificuldades em amamentar. Mas não posso deixar de comentar sobre as dores e dificuldades da amamentação, que para muitas mulheres, dura por todos os meses em que se amamenta. Leite vermelho de sangue, muitas lágrimas derramadas. Para algumas, frustração, tensão e dor, que acompanham um gesto que achamos que será natural e instintivo. A nós, que estamos de fora, nos resta apoiar: levar água, ficar com o bebê para a mãe descansar, ter um olhar empático e sem julgamento e, acima de tudo, respeitar a decisão que esta mãe tomar em relação à amamentação. É isso que praticamos no CineMaterna: o mais profundo acolhimento às escolhas maternas.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Território feminino

Há dois meses comentei que passamos por uma tormenta. Chacoalhou bastante, mas agora, o barco navega em águas tranquilas. Foi necessário recompor o time e restabelecer a energia, para retomarmos o rumo.

Precisamos completar o time para equilibrar o barco. Queríamos mulheres porretas, competentes, experientes e ainda por cima, mães e admiradoras do CineMaterna. E achamos, viu? As duas: a Edna Bossay e a Mirian Rodrigues.

A Edna veio cuidar dos patrocinadores e das ações promocionais. Já a Mirian é a responsável pelo atendimento aos shoppings apoiadores, que são mais de 100. Juntas, são responsáveis pela sustentabilidade econômica do CineMaterna.

Mais altas, a partir da esquerda: Edna e Juliana
Embaixo, a partir da esquerda: Irene, Tatiana, Marcela, Carol,
Gláucia, Mirian e Gisele

Parece que apenas levamos mães ao cinema, certo? Só que pra chegar nisso, tem um planejamento imenso, seguido de uma produção fina e concatenada. Imagine que cada sessão do CineMaterna tem ligadas a ela, um shopping, um cinema, uma enquete, divulgação, artes de promoção, materiais de reposição, duas voluntárias, seus pagamentos, ajustes técnicos e eventuais problemas e correções, recebimento pelo serviço (e pagamento de impostos), brindes, relatório. São mais de 100 dessas sessões a cada mês, Brasil afora. Só com um time fantástico para conseguir isso, não?

Então, além da Edna e da Mirian, temos a Carol Troque, nossa designer e responsável por logística, Gisele Silva no atendimento ao público, Gláucia Colebrusco na supervisão das voluntárias, Juliana Freire no financeiro, Marcela Santos, nossa "informática", que cria a automação dos processos e Tatiana Storni, na produção de atividades especiais. Sem contar nossa super equipe de 380 voluntárias (mães) em cada uma das 50 cidades, que fazem tudo acontecer. Nossa assessoria jurídica, de imprensa e de contabilidade também são domínio de mulheres (constatei isso somente agora, ao escrever este texto)! Ah, e eu fico na direção geral.

Sim, somos 400 mulheres que entendem de mães e trabalham para um início de maternidade com mais leveza e menos cobrança, porque vínculo e amor certamente contribuem para um mundo melhor.

Equipe unida, anda no elevador espremida

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Em ritmo de filhos

Li esta manhã a coluna do Ricardo Araújo Pereira na Folha de São Paulo intitulado "Ter ou não ter", referindo-se a filhos. O texto é fechado para assinantes, então vou escrever livremente os meus pensamentos, citando um ou outro trecho.

A reflexão do autor é sobre a decisão de ter filhos, que chega um ponto no casamento em que as pessoas escolhem um caminho a trilhar. Eu, por exemplo, passei parte da minha vida de casada achando que não teria filhos. Estava muito boa a vida a dois, consolidada por 10 anos, com boa renda, viagens, noites bem dormidas, idas a museus e restaurantes bacanas. Coincidência ou não, listei rapidamente os pontos que, para mim, foram fortemente abalados com a chegada dos filhos. Ah, só não se perde a ida ao cinema, até os 18 meses do bebê, pelo menos.

Mas o que é uma "vida boa"? O que é ter a existência "abalada"? Sem dúvida, ter filhos altera radicalmente a rotina. Mais ainda, ter filhos muda o que somos. Passamos a pensar no plural, refletimos mais sobre passado, presente e futuro, fazemos contas para ver se o dinheiro permite, tentamos pensar antes de falar e falhamos inúmeras vezes. Se você é mãe, some a estas mudanças o fato de se sentir culpada com muito, muito mais frequência.

Só que depois de ser mãe, sei que nada substitui ver os primeiros sorrisos, ouvir as gargalhadas, sentir os abraços, escutar as primeiras palavras e frases, acompanhadas das noites insones, das febres, dos dentes nascendo, da irritação com a bagunça infinita que se tornou sua vida.

Não sou melhor por ter filhos e não me vejo na posição de dizer para ninguém que "todo mundo pre-ci-sa passar por esta experiência". Isso não me tornou melhor nem pior, só me fez diferente do que eu era antes.

Ricardo Pereira constata que não há boa razão para se ter filhos. Não é porque dão alegria ou para dar sentido à vida. "Não sei por que tive filhas. E assim é que está certo. Elas não devem ter uma razão de ser, uma utilidade. Olhar para elas, vê-las crescer, é a única coisa a que eu tenho direito."

Nos primeiros dias de uma família com dois filhos

Há 10 anos tomei, com meu marido, a decisão de ter um filho. Não lembro bem como foi que decidimos, e talvez tenhamos acordado um dia com vontade de ter filhos, não duvido. Tivemos não apenas um, mas três anos depois, veio o segundo - outra nada fácil decisão de vida. Somos felizes, predominantemente, mas às vezes, queremos nos matar uns aos outros.